No último dia de São Jorge, saí com meu amigo, popularmente conhecido como Cazuza, em busca de uma meta audaciosa: comer três feijoadas em três lugares diferentes. Não era uma tarefa simples. A complexa geografia popular do Rio e nossa vontade de chegar intactos à última feijoada eram os maiores desafios.
Nosso roteiro, traçado na véspera, começava cedo em Madureira. Primeiro, o deslocamento para Quintino, nosso ponto inicial, onde nos aguardava a Igreja de São Jorge. Perto dali, na segunda parada, daríamos uma passada na festa de Zé Pelintra, no barracão onde a primeira feijoada do dia já estaria a postos. Em seguida, buscaríamos a segunda feijoada, na associação de moradores perto de casa, no Engenho de Dentro, para curtir a folia de rua com quem nos viu crescer. Por fim, a última feijoada seria a da minha mãe (A melhor, sem duvidas), no Encantado, meu bairro de infância, coroando o dia com um show gratuito de Jorge Aragão nos galpões do Engenhão.
Esse roteiro, aparentemente “simples”, nos reservou gratas surpresas. Para quem não conhece a Zona Norte carioca, todos esses pontos são conectados pela linha do trem que serpenteia o subúrbio. Sair de Madureira e chegar a Quintino nos apresentou o primeiro obstáculo: andar da estação até a Igreja. Uns 15 a 20 minutos de caminhada sob o sol forte do Rio pareciam exaustivos. Mas São Jorge estava conosco – não só com Cazuza e comigo, mas com toda a Zona Norte, com a cidade inteira.
O Padrinho da Cidade e o Encontro de Caminhos
O padroeiro do Rio é São Sebastião, mas o padrinho é São Jorge! Sua imagem está em toda parte: ruas, bares, praças, grafites, camisetas. Para muitos cariocas, ele é um segundo pai, um ponto de convergência que transcende credos. Policiais e bandidos, taxistas e motoristas de aplicativo – todos se unem na devoção ao santo guerreiro. Talvez a natureza bélica do Rio tenha nos levado à São Jorge, ou a de São Jorge fez o Rio ser como é, afinal, como diz a tradição: Ogum é aquele que, mesmo tendo água em casa, lava-se com sangue. No Rio, rezar para São Jorge é, muitas vezes, sair de casa com uma armadura. Para quem não sabe se volta, toda defesa ajuda.
A caminhada até a Igreja passou voando. As ruas fervilhavam com bares e pessoas com seus latões na mão, encurtando o caminho. Quem viveu uma cidade em festa sabe como as distâncias diminuem. Carnaval, Copa do Mundo, São João… Os percursos são mais leves. Minha conversa com Cazuza sobre o santo guerreiro tornou a jornada quase imperceptível.
Chegamos à festa. Fomos engolidos por uma multidão de camisas vermelhas e brancas. Batuques ecoavam de todo canto, misturados ao som da missa que acontecia na Igreja. Subimos a ladeira para acender uma vela no velário. A Igreja estava lotada; alguns, como nós, queriam apenas ascender uma vela, outros lotavam o interior para assistir a missa. Todos ali buscavam energia com São Jorge: agradecer, pedir, homenagear, ou apenas trocar umas palavras ou goles. Ao fundo, ouvia-se “Ogum Yêêê!”. Cazuza sorriu e afirmou: São Jorge não tem como ser só católico. Uma festa de santo com missa e saudações a orixás, pessoas com cerveja na mão dentro do território da Igreja, samba lá fora, homenagens a Zé Pelintra – nada disso é típico da liturgia católica. Mas no Rio, São Jorge é encruzilhada.
O professor cabo-verdiano José Carlos do Anjos define a encruzilhada como um ponto de “E”, não de “OU”. Duas ruas que se encontram não deixam de ser elas, mas criam algo novo. Por isso, a religião de matriz africana é tão plural. A cada encontro, algo novo surge. Não há problema em São Jorge ser santo E Ogum também. A encruzilhada se opõe ao sincretismo porque as diferenças se mantêm, gerando algo novo. Nas palavras do professor, “a lógica rizomática da religiosidade afro-brasileira, ao invés de dissolver as diferenças [proposta do sincretismo], conecta o diferente ao diferente, deixando as diferenças subsistirem como tais.” Assim, São Jorge e Ogum se encontram.
Feijoada e Confluências
Em meio a essa conversa sobre encruzilhadas, descemos da Igreja, mas não sem antes benzer nossas pulseiras e cordões e receber um banho de bênçãos. Voltando à rua, encontramos o samba na esquina do borracheiro. A roda de pagode pulsava, e rostos familiares começaram a surgir. Quem nasce e cresce no subúrbio sabe que nessas datas festivas, reencontramos pessoas que não víamos há muito tempo. Pessoas que vimos crescer e que nos viram crescer. É um misto de orgulho e saudosismo. Juntaram-se a nós Lucas Paiva, Thales e Pablo, criando uma roda de conversa em meio à roda de samba. Lembrei das palavras de meu amigo e professor Humberto Manoel de Santana Junior: “O encontro é, antes de tudo, uma composição de desencontros.” Para quem é do povo de santo, os caminhos nunca se cruzam por acaso.
Começamos a conversar sobre a relação do samba com a festa de São Jorge. Muitos sambas e sambistas celebram São Jorge/Ogum. Ambos não nasceram no Rio, mas aqui se criaram, povoam a noite e adoram uma cerveja. Essa tríade (ser de fora do Rio, gostar de cerveja e curtir um bom samba) marca outros encontros que teríamos adiante. Para entender a geografia popular carioca não basta saber onde pisa, mas como pisar. O patuá é a nossa proteção. A armadura de São Jorge é a que protege a volta para casa de quem trabalha no samba, na noite, e vive cercado de cerveja.
O samba é a trilha musical do Rio. Seu som sincopado marca o “molejo” carioca. Assim como a encruzilhada, o samba é plural e polifônico. Tudo é possível. Em uma roda, prato e frigideira podem tocar ao lado de trombone e flauta. E desses encontros nasce o samba. O autor nigeriano Chinua Achebe disse: “Escutando Louis Armstrong, eu podia ouvir os espíritos mascarados falando, cantando, no modo como ele fazia soar esse instrumento europeu ocidental.” Na encruzilhada, as coisas se encontram pela lógica do contato, da relação, da diferença, criando formas de convívio. O cavaleiro romano do século III é cultuado nos terreiros de Quintino ao som de atabaques. Flauta e trombone podem soar ancestrais ao lado da cuíca e do pandeiro.
Ao fim da conversa, regada a cerveja e hinos de Arlindo Cruz, a fome bateu. Era meio-dia, e a primeira feijoada seria servida. Fomos para o nosso segundo destino, ainda na mesma rua da Igreja: um terreiro de portas abertas celebrando Zé Pelintra no dia de São Jorge, com muita macumba e feijoada. Zé Pelintra é outro encontro nessa encruzilhada carioca: veio de fora, mas se criou aqui, é da noite e da boemia, e também é agraciado com cerveja. O marinheiro nordestino que virou malandro no Rio é celebrado nesse dia, talvez como um amigo, um parceiro.
Lá estávamos nós, eu e Cazuza, no quintal de uma casa de macumba, na festa de Zé Pelintra no dia de São Jorge. Não são acasos que formam esses encontros, mas o que Nego Bispo chamou de confluências. Um encontro só acontece porque todos se propõem a estar no caminho um do outro. Esses encontros entre samba e macumba, entre São Jorge, Ogum e Zé Pelintra, são confluências construídas nas encruzilhadas. E um terreiro é feito de múltiplas encruzilhadas, universos dentro de universos. Lembro-me de Humberto falando: a gira é um ponto de encontro com hora marcada. No quintal daquele lugar, me senti em casa. Meu primeiro contato com as religiões de matriz africana foi no quintal de casa, uma encruzilhada onde se ouvia a gargalhada de Exu, o grito de Oyá, e as cantigas entoadas para o bem viver. Conforme cresci, entendi Manoel de Barros: “meu quintal é maior que o mundo”. Nele tive meu primeiro contato com a macumba e o samba, se é que dá para diferenciar.
Para um leigo, samba e macumba soam parecidos. Nós que vivemos aqui aprendemos a diferenciar, mas a proximidade é imensa. Dizem que o samba nasceu dos terreiros, ao final dos rituais. Talvez por isso dividem uma cosmopercepção africana: o ritmo, a corporeidade, a síncope, o tambor, a roda. Samba e macumba eram tão íntimos que é difícil distingui-los. O primeiro samba gravado no Rio, por Donga, teria sido uma criação no quintal da Tia Ciata, uma mãe de santo, líder política, curandeira, sambista e cozinheira. Depois de curar o presidente Wenceslau Braz, ela pediu um emprego para o marido na polícia, e o quintal de Tia Ciata, na Pequena África, tornou-se um local livre de incursões policiais, um espaço aberto para samba, macumba e comida.
Anos depois, estávamos nós num quintal cantando macumba após um samba. Carlos Cachaça, da Mangueira, dizia que a primeira pessoa que viu cantar samba fora Mano Elói, que chegou ao Buraco Quente da Mangueira. Antes, lá só havia macumba. Não cabe discutir quem criou o samba, mas como ele se espalhou pela cidade: pelas macumbas. Sem macumba, não tem samba! Nem todo sambista precisa ser macumbeiro, mas todo macumbeiro é um pouco sambista. Palmas e batucadas nas giras e rodas de samba são quase iguais.
Naquele quintal, o cheiro de feijoada se espalhava. O prato de comida se materializou: feijão, arroz, farofa e couve. Um prato que, outrora, era visto como símbolo de um Brasil desracializado, uma réplica harmônica da sociedade. Mas, ali, ao som de “Seu Zé Pelintra tem uma nega na cozinha. Ela toca reco reco nas costelas da galinha!”, com batuques, santos assentados e um piso de caquinhos vermelhos em Quintino, no dia de São Jorge, eu sabia que aquele prato tinha raça. Era um prato feito por escravizados! Se a feijoada representa o Brasil, seus criadores foram o povo africano e seus descendentes. Mas, diferente do prato, nossa sociedade não tem harmonia; é conflito o tempo todo. Acorô, Ocodê! É dia de Ogum, é dia de São Jorge! Parte dessa celebração é a festa do conflito. Uma amiga professora, Cristina Giorgi, me disse que a concordância é supervalorizada; o que nos faz caminhar é o conflito. E de fato, é ele que nos move, seja de ideias, pontos de vista ou perspectivas. O caminho para nossa sociedade talvez seja abraçar o conflito, aceitar a influência de São Jorge e Ogum.
Com fome, pouca coisa passava pela minha cabeça. Eu e Cazuza devoramos a feijoada gratuita. Para quem diz que não existe almoço grátis, nunca pisou num subúrbio em dia de festa. O ato de compartilhar a comida a torna mais gostosa. Queríamos dois pratos, mas ainda havia duas feijoadas pela frente.
Cerca de uma hora depois, saímos do terreiro. Já era uma e meia, quase duas da tarde. Descemos a rua para pegar um ônibus em direção ao Encantado, mas, para nossa surpresa, a rua principal estava fechada devido à festa. Eu e Cazuza nos olhamos e decidimos ir a pé de Quintino ao Encantado. A distância era grande, mas com um latão na mão e muito papo, o caminho foi quase imperceptível. A andança regada a cerveja, risadas e brincadeiras tornou tudo mais gostoso. Nossa sociedade, focada em não perder tempo, esqueceu como é bom ganhar um tempo com algo que gostamos. O percurso já fora escrito por Marquinhos de Oswaldo Cruz, Edinho Oliveira e Arlindo Cruz:
“Já pedi pro meu São Jorge
Pra guiar o meu destino
Na igreja do Guerreiro eu rezei
Lá em Quintino
Tem Botija, Água Santa, Usina
E universidade
Alô, Caixa, alô, 18, alô, Povão
Da Piedade”
Essa é a geografia popular. Pelo caminho abençoado por Ogum e guiado pelos trilhos do trem, não faltavam histórias a serem contadas e relembradas. Como suburbanos, olhávamos as ruas e lembrávamos de familiares, botecos inesquecíveis e perrengues que hoje viraram risadas. Estava quente, mas a cerveja dava forças. O cálculo era simples: um latão para cada, se demorar esquenta, então beba rápido! Não havia risco de ficar bêbado, pois estávamos andando e bebendo. Isso nos motivava a andar mais: beber mais. Bebendo e andando, não sei a distância exata, mas foram uns 5 ou 6 latões. É engraçado como, nesses momentos, caminhos grandes se tornam pequenos, e em momentos ruins, pequenas distâncias se tornam infinitas.
Em meio a muito papo, chegamos. De frente para o segundo desafio, a fome bateu de novo. Entramos na associação de moradores: uma quadra de futebol com alguns quartos ao redor. No meio da quadra, uma roda de samba batucava, atraindo a atenção de todos. A quadra estava cheia de gente que me rodeia diariamente no meu bairro. Cresci num lugar pequeno, onde as relações eram provincianas; todos se conheciam e faziam parte da história um do outro. Estar ali era ver as caricaturas que sempre me cercavam: os “doidinhos do bairro”, a tia que me dedurou, o tio que me protegeu, o Aranha que cuidava da minha bisavó, as duas trambiqueiras do jornal. Todos faziam parte de um cosmo único de um bairro suburbano, quase parentes uns dos outros. Existe um provérbio africano que diz que para criar uma criança é preciso uma aldeia inteira. Por isso, nos bairros do subúrbio, tantos vizinhos se sentem responsáveis pela criação dos filhos uns dos outros, pois há um elo de parentesco ali, mesmo sem o sangue. E não há nada melhor que ganhar parentes, já dizia Chinua Achebe: “Somos melhores que os animais porque temos parentes. Um animal, quando sente coceira, esfrega o flanco numa árvore; um homem pede que um parente o coce.”
No meio dessa grande família estendida, Cazuza e eu compramos um balde de cerveja. Compartilhamos risadas e histórias. De repente, o cheiro inconfundível tomou o ar: as feijoadas estavam sendo servidas! Uma correria organizada começou. Com o prato na mão, pensei: “Essa comida, mesmo que não fosse brasileira, aqui se torna.” Tão nacional que samba e feijoada se tornam uma paisagem que reflete o paraíso. Quis que o mundo parasse, que aquele breve instante se congelasse. Estar ali era bom. Terminamos de comer, cantamos, berramos mais sambas do Zeca e algumas macumbas em forma de samba.
O tempo voa quando a gente se diverte. Ao menor sinal de luz, o sol começava a se pôr. “Droga, tenho que correr pra casa”, pensei. Alertei Cazuza sobre o tempo. Precisávamos estar em casa antes do pôr do sol, afinal, feijoada é almoço, não jantar! Corremos para casa. Mora ao lado de onde estávamos. Em cinco minutos, já estava em casa. Os latidos dos cachorros anunciavam minha chegada. Entro, os prendo, aviso meu irmão que temos visitas. Meu padrasto e minha mãe se alegram ao nos ver. Sentamos à mesa e, quase sem fome, fizemos o esforço de comer a última feijoada. Por sinal, a mais gostosa! Com uma estátua gigante de São Jorge na mesa, comemos uma feijoada esplêndida. Minha mãe pôs os melhores pagodes dos anos noventa para tocar. Ali, em meio a tanta paz, vi o saldo de um dia tão longo e corrido… veio a “lombeira”. A barriga estufada lembrava Beto Sem Braço: “o que espanta miséria é festa”. E era mesmo. Ogum nos abençoou com um dia maravilhoso, cheio de andança, histórias, cervejas e boa comida. Aninhado no sofá, contava à minha mãe as histórias e as pessoas que encontramos. Meus olhos começaram a se fechar. Cazuza, sentado, quase se entregando ao sono. Agradeci por estar ao lado da minha mãe. No quintal de casa, vi que estava onde sempre quis e precisei estar: no começo. Como dizia Nego Bispo: é começo-meio-começo. Nunca fechamos, somos circulares. Comecei o dia pensando no quintal que guiou minha forma de ver o mundo, até chegar a ele novamente e depois sair para outro estágio com ele como guia outra vez.

O Fim da Jornada (e o Começo de Outra)
Quase como um pulo, gritei: “Vamos, que o Jorge Aragão vai cantar e a gente não vai ouvir!”. Levantamos no maior marasmo do mundo e fomos para o show, que era no fim da rua, ao lado do Nilton Santos, o Engenhão. Moro no fim da rua e vejo o estádio todos os dias. Como botafoguense, tive grandes alegrias lá. Mas, tomado pela vontade de virar uma jiboia e focar na digestão, nunca vi aquele estádio tão distante! Longe demais, mesmo a poucos metros.
Pouco a pouco, eu e Cazuza vencemos o caminho. Entramos no show com os olhos pesados. Mas a voz inconfundível de Jorge Aragão nos transbordou de energia. Cortando o vento como um raio, ouvimos o mestre cantar uma música que já teríamos escutado umas oito vezes naquele dia, mas sua voz a fez soar como se fosse a primeira: “eu sou descendente zulu, sou um soldado de Ogum. Devoto dessa imensa legião de Jorge”. Como crianças, eu e Cazuza nos entreolhamos, ansiosos para aproveitar o show. Mais músicas, mais cerveja, mais amigos surgiram, e novas histórias foram contadas. Varamos a noite, mesmo tendo que trabalhar no dia seguinte. Bom, dizem que no final do dia, o guerreiro descansa. No Rio, ele samba.
Gustavo Machado Cantisani é professor de História e cria da Zona Norte carioca, formado entre Madureira e Engenho de Dentro. Desde cedo, trilhei os caminhos do samba e do hip-hop, que me conduziram à universidade. Bolsista PROUNI, graduei-me em História pelo Centro Universitário Celso Lisboa e, em seguida, tornei-me mestre em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET-RJ, com a pesquisa Entre a encruzilhada e o povo nas ruas: pisando o mundo dos feitiços de João do Rio em busca das macumbas cariocas no pós-abolição (1888-1908). Atualmente, sou educador na Celso Lisboa e no projeto social Iniciativa Preta, além de professor convidado no PPRER/CEFET-RJ, onde ministro a disciplina de Antropologia e Religiões de Matriz Africana.
As pinturas que acompanham o texto são de autoria do artista cearense Blecaute.